
O CAADOR
DE PALAVRAS

WALCYR CARRASCO
Jornalista
Autor de literatura infanto-juvenil, teatro e TV
Cronista da revista Veja-SP


TEXTO
Editora
Sandra Almeida
Assistente editorial
Rogrio Ramos

ARTE
Ary A. Normanha
Composio/Paginao em vdeo
Edson Vander de Oliveira


ISBN 85 08 04481 X
1993


Todos os direitos reservados pela Editora tica S.A.
Rua Baro de Iguape, 110 - CEP 01507-900
Tel.: PABX 278-9322 - Fax: (011) 277-4146
Caixa Postal 8656 - End. Telegrfico "Bomlivro"
So Paulo

O CAADOR
DE PALAVRAS
WALCYR CARRASCO


                Palavras compem o universo de qualquer pessoa. As complicadas, as mais usadas, as desconhecidas, as indispensveis, as amorosas, as de desprezo. 
Difcil imaginar uma situao humana sem elas.
               A descoberta da importncia da palavra e dos seus inmeros sentidos, esse o grande desafio. Que voc enfrenta quando consulta um bom dicionrio. Nossa 
personagem Jlio Malatesta, na novela O caador de palavras, sabe disso e busca, atravs de mltiplas aventuras e desventuras, um sentido para a sua palavra.



UM

          H semanas, ando perdendo o sono. Passo as noites olhando a lua transformada em quebra-cabea pelas grades. Muitas vezes, acordo com o frio, ou devido 
a coceira provocada pelas pulgas que povoam meu esburacado colcho. Tambm sou despertado pelos roncos sonoros de meus colegas de priso, que parecem ter engolido 
alguns motores a diesel. Mas no posso reclamar. Apesar desse desconforto, fui colocado junto a prisioneiros pouco violentos, como eu. J  uma vantagem para quem 
est numa situao onde tudo  desvantajoso. O pessoal daqui costuma dividir as bananas e laranjas que ganham das famlias. Para mim,  outra vantagem, pois sou 
o que menos visitas recebe.
          Resolvi aproveitar as madrugadas insones para escrever meu relato. Um tanto por vaidade, mas tambm com a esperana de que um possvel juiz mais potico 
saiba me compreender. Quero deixar registrada a minha saga, para que algum dia eu seja
5
lembrado como autor de um feito sublime: ser o dono de uma palavra que escolhi, divulguei e imprimi na fala das pessoas como uma tatuagem.
          A grande aventura da minha vida comeou de forma absolutamente inesperada. H pouco tempo atrs, relativamente, eu era um sujeito como outro qualquer. 
Tinha um emprego chato, desenhando grficos de vendas em um escritrio. Ganhava razoavelmente. Pelo menos, podia pagar um pequeno apartamento no centro de So Paulo, 
e comer em uma boa penso perto do trabalho. Algumas das minhas meias, confesso, tinham um furo no dedo, ou o cano um tanto esgarado. Mas eu refletia: quem  que 
olha para meias? Pode parecer coisa de porco, j que tambm no tinha o hbito de lav-las com frequncia. Confesso: nunca tive muito talento para as atividades 
domsticas. 
          Apesar de no ser mais um adolescente, eu sempre tive muito a ver com quem ainda no chegou aos vinte anos. Explico: em geral, com uma certa idade, as 
pessoas se acomodam, ficam srias, e deixam de, s vezes, olhar a noite e pensar sobre as estrelas. 
6
Admiro os bem jovens porque todos eles, de certa maneira intuitiva, sabem que a vida  uma pgina em branco, e que somos ns mesmos quem escrevemos nossa histria. 
Naqueles dias, eu me sentia exatamente assim: uma pgina em branco, como se o livro de minha vida no tivesse sido realmente iniciado. Eu esperava, enfim, descobrir 
um sentido, um objetivo, uma atividade que me desse paixo. Os dias, porm, sucediam-se calmamente, sem mudanas, sem nuances.
          Perdi minha famlia muito cedo. Sou sozinho no mundo, tenho apenas alguns primos distantes. Trabalhava em uma empresa pequena, conhecia pouqussima gente. 
Sofria com a solido,  claro. Quem no? A maior parte das noites, eu comia um sanduche em um bar, ou tomava um copo de leite quente, e entrava em um cinema. Se 
pudesse, escolhia algum com sesso dupla, para ficar horas e horas em frente  tela mgica. Muitas vezes, assistia ao mesmo filme duas vezes seguidas: a primeira, 
para entender a histria. A segunda, se o filme fosse bom, para observar cenrios, figurinos, a interpretao dos atores.
7
Foi por causa de minha mania de ir ao cinema que tudo aconteceu.
Naquela noite, eu estava cansado. E o filme era bem aborrecido, para dizer a verdade. S fiquei para a segunda sesso porque estava chovendo, e no queria molhar 
os sapatos. Nos primeiros dez minutos de filme, adormeci. Meu corpo escorregou da cadeira, e dormi to confortavelmente como em minha cama.
          Acordei em plena escurido e silncio. No incio, nem sabia onde estava. Aos poucos, meus olhos foram se acostumando com a falta de luz. Vi a tela branca, 
o letreiro de sada apagado. No entendi, imediatamente, o que estava acontecendo. Levantei, atordoado. Com dificuldade, empurrei a porta de entrada. Pesada. Sa 
no saguo. S ento percebi o que havia acontecido: haviam esquecido de mim, no cinema. Completamente. Talvez no tivessem me visto. Olhei o relgio, estava no meio 
da noite.
          Quis telefonar. Fui at o escritrio, estava trancado. Pensei em quebrar o vidro. Nunca senti tamanho desespero.
8
           incrvel como um cinema vazio,  noite, pode ser ttrico. Olhava para as paredes, via sombras. Ouvia rudos. Ao mesmo tempo, tentei raciocinar. Arrombar 
a porta, ou qualquer coisa do tipo, poderia terminar em confuso. Chamar a polcia tambm: como explicar minha presena, se todos pensariam, no primeiro instante, 
que eu era um ladro? O ideal, sem dvida, era aguardar algumas horas, e esperar, pacificamente, que algum viesse abrir o cinema. Poderia, ento, sair calmamente.
          Como passar aquelas horas difceis? Foi quando vi, no canto do balco da doceira, ajudando a apoiar uma lata, um livro grosso. Fui at ele. Peguei. Era 
bem pesado.
          Sa do saguo, onde s entrava a luz do luar, e fui ao banheiro. Acendi a luz. No hall de entrada que levava aos dois toaletes, havia um sofazinho velho. 
Sentei, e abri o livro. Era um dicionrio com a origem e o significado das palavras. No primeiro instante, pensei:
           Bem que eu preferia um livro policial.
          Puro engano. S para me distrair, comecei a folhe-lo. Pouco a pouco, fui sendo envolvido pelo
9
universo fascinante das palavras. Elas comearam a brilhar para mim como estrelas no cu. Da mesma forma que todas as pessoas, sempre vivi cercado por verbos, substantivos, 
adjetivos. Com eles, dei forma a sentimentos, expressei vontades, descobri risos, comuniquei emoes. Mas, assim como no se pensa conscientemente nos dedos cada 
vez que se pega um garfo, tambm no me detinha nas palavras. Elas faziam parte de mim como os olhos, os cabelos e as unhas. Eram to enredadas no cotidiano como 
o elevador do prdio, o nibus, o carto de ponto. Apesar de flurem atravs da vida com tanta facilidade quanto o ar que respirava, as palavras eram um instrumento 
que eu usava mecanicamente.
          De repente, tudo mudou.
          Naquela noite, descobri que as palavras guardam histrias. Percorrem os tempos, registrando emoes, atravessam vidas. Entendi, pela primeira vez, o fascnio 
dos poetas ao brincar com elas, criando versos e rimas que trazem os sons das mars, a cadncia dos sentimentos, o colorido das primaveras. A paixo de quem faz 
letras de msicas, sonoras por si
10
ss, onde as palavras remetem umas s outras, danam entre si. Senti o encanto dos escritores, que as usam para criar mundos e vidas, como se fossem bilhetes para 
viagens fulgurantes. E ento, eu tambm me apaixonei, porque descobri, mais que tudo, o quanto as palavras so vivas.
          Deixei de ouvir os rudos, de olhar as sombras daquele cinema vazio. Era como se eu estivesse lendo um romance que falava de todas as pessoas, de toda 
a humanidade. Quis seguir a trilha das palavras. O livro me ensinava a desvendar os pequenos mistrios ocultos em termos prosaicos. A palavra beb, to simples, 
revelou a vida de uma corte misteriosa. Sua origem, provavelmente, aconteceu com os balbucios infantis. Mas ela s entrou para a lngua atravs de um personagem: 
Bb (l-se Beb). Foi um ano clebre de uma corte imperial. Viveu entre 1739 e 1764. Na poca, os anes eram usados para divertir os nobres com palhaadas e piadas. 
Usavam roupas de guizos, davam cambalhotas, faziam comentrios venenosos. Bb foi famoso, um artista da galhofa, cujas piadas eram repetidas por todos. Incorporou
11
seu nome na lngua francesa. O termo acabou desembarcando no portugus, e hoje todo mundo fala em bebs, embora a corte tenha desaparecido e o ano com guizos e 
roupas de veludo no seja mais do que uma lembrana no idioma.
          Descobri que as palavras ganham e perdem significados, como se fossem pedaos de argila modelveis com a histria de cada povo. Algum hoje fala em camisinha 
para dizer que a camisa est pequena? Mais que isso: outdoors, panfletos, livros, falam abertamente na importncia dos preservativos. No entanto, houve poca em 
que a simples meno da camisa-de-vnus  nome dado por nossos avs  camisinha  era motivo de escndalo, principalmente diante de uma dama. Quantos duelos tero 
sido travados por isso?
          Aquela noite mudou minha forma de ser. Passei horas lendo o dicionrio, e quando amanheceu eu estava absolutamente encantado. Entrou um servente com um 
balde. Ele me olhou espantado: jamais esperaria encontrar algum lendo de madrugada, na porta do banheiro, dentro do cinema. Aproveitei sua
12
surpresa para me levantar e sair sem dar maiores explicaes.
          Levei o dicionrio comigo. Como um livro to fascinante podia estar sendo usado como apoio para uma reles lata de biscoitos? De fato, sentia que pela primeira 
vez na vida alguma coisa me despertava, me fazia vibrar. Finalmente, podia escrever nas pginas em branco da minha vida. Eu tinha me apaixonado pelas palavras.
          Muitos mestres esotricos garantem que as grandes mudanas da vida acontecem assim, de uma forma que parece construda pelo acaso. Sbio  o homem que 
aprende a ver nos acontecimentos que o cercam as indicaes de um caminho mais profundo. Acredito ter ocorrido exatamente isso comigo. Fiquei fascinado pelas palavras, 
e pressenti que nesta paixo estava cravado meu destino. Mesmo agora, na cadeia, no me arrependo. No vejo o tempo que passarei na priso como um porto final, mas 
como um contratempo em um caminho que, se no me trouxe a felicidade, tal como as pessoas falam, pelo menos me deu sede de viver. Errei,  certo, em mui-
13
tos aspectos. Mas sei que agora poderei orientar a experincia para horizontes mais amplos, corno mostrarei com a minha histria. H quem diga aqui na cela, porm, 
que fui preso por causa das palavras.
          S eu sei: no foi exatamente por culpa delas. Mas devido a uma descoberta pessoal. Conclu que as palavras valem mais que roupas ou outros artifcios 
sociais. Quem fala como malandro,  encarado como tal. Quem usa termos de economia, passa por conhecedor dos mecanismos financeiros. Os que falam pausadamente, com 
termos elegantes, so considerados chiques.
          Todas essas ideias surgiram porque pesquisar palavras tornou-se uma mania em minha vida. Dia e noite, eu me deliciava com elas. Fiquei to entregue s 
minhas novas ideias que, em pouco tempo, tive minha primeira vitria: fui demitido. A verdade ,que passava todo o expediente fazendo grficos no de vendas, mas 
da histria das palavras. Tudo aconteceu quando resolvi estudar o termo mameluco.
          Desde a escola de primeiro grau, aprendera que mameluco define os filhos de ndios e brancos.
14
Numa incurso  etimologia - cincia que estuda a origem das palavras -, descobri que mameluco vem do rabe mamluk. Originalmente, o soldado de uma milcia turca 
egpcia formada por escravos. Refleti durante dois dias sobre a trajetria do termo. Imaginei um grupo de rabes desembarcando no Brasil, conservando entre si sua 
lngua, vivendo em casas prximas umas das outras. Olham com preconceito os nativos, de pele acetinada, olhos ligeiramente amendoados. Os primeiros filhos de ndios 
e brancos eram marginalizados na sociedade brasileira  s encontravam trabalhos subalternos. Os rabes, ao v-los inferiorizados, comeam a cham-los de mamluks 
 um exrcito de trabalho quase escravo. A palavra vai sendo absorvida. Perde a conotao malvada, e entra para os livros de escola. 
          No dia da demisso, eu estava traando, distraidamente, a histria da palavra numa folha de papel. Em um canto, coloquei as pirmides. Depois, desenhei 
um barco, com o grupo de rabes deixando o Cairo. Nesse momento, senti a folha deslizar de minha mo. Mais exatamente, para os dedos de meu chefe.
15
           Jlio, que histria  essa?
          Tentei explicar. Ele perguntou pelos grficos, atrasadssimos, razo pela qual viera falar comigo. Eu me confundi. Quis dizer que no era apenas um mamluk, 
um escravo. Tentei falar de meus desejos e aspiraes. Intil. H semanas estava de olho em mim. Se eu tivesse conseguido me explicar, talvez me perdoasse. Mas as 
palavras transformaram-se em uma teia de confuso. Muitas vezes as ingratas nos faltam, quando mais as necessitamos. Recebi o bilhete azul.
          Sei que deveria ter ficado preocupado, principalmente num momento em que as pessoas falam tanto de crise financeira. Nunca me senti to feliz. Aliviado, 
at. Eu estava vido para viver a grande aventura da minha vida. 
          Porque naqueles meses de paixo por verbos e substantivos, um sonho tomara meu corao. Meu nome teve muito a ver com isso. Jlio era o nome do imperador 
romano Jlio Csar, por quem Clepatra se enamorou. Alm de legar o nome e a lista das batalhas que venceu para a posteridade, Jlio Csar
16
deixou um ms, julho. Seu sucessor, o imperador Augusto, fez o mesmo: batizou agosto. Meu sobrenome tambm tem significado, embora no seja to charmoso: Malatesta. 
 de origem italiana. Em bom portugus, Jlio Malatesta significa Jlio, o pirado. Desde que me apaixonei pelas palavras, sabia que no seria escritor ou poeta. 
Apesar disso, tinha a ambio de deixar uma marca de minha passagem pelo mundo. Inspirei-me em Bb, o ano, e no imperador de quem herdei o nome.
          Decidi deixar uma palavra. Nem mesmo fazia questo de que soubessem que era minha. S queria difundir uma palavra que se incorporasse  lngua. Para ser 
falada na rua, lida nos discursos, livros e poemas, chorada nas novelas. Queria apenas ser o proprietrio secreto de uma simples palavra. Um sonho annimo, mas para 
mim to vivo quanto os grandes sonhos podem ser.
          Pensei, pensei.
          Era preciso dar novo rumo  minha vida. Deixei de procurar emprego, restringi meus gastos. Sequer voltei a comer na penso: especializei-me em ovos
17
fritos e omeletes. O que era um simples desejo foi tomando forma, e eu me propus a criar uma palavra que trouxesse alegria, felicidade, alto-astral.
          Seria sinnimo para o amor, resolvi. O amor  uma palavra, sem dvida, presente nos momentos de felicidade. Mas, de que maneira dizer amor? Antes de mais 
nada, deveria criar a palavra, ou dar nova vida a um termo. E, em seguida, torn-lo to vivo quanto uma palavra deve ser.
          To viva quanto o amor.
          Criar uma palavra no  to simples quanto parece. Quando eu era criana, tinha a mania de brincar com a lngua do P. No sei se a moda hoje continua. 
A gente fala acrescentando "pe" a cada slaba. Por exemplo:
           Peme ped peum pesan pedu pe peche?
          Parecem os sons de alguma obscura lngua oriental.  apenas o velho portugus misturado com "pes". Quando meu sonho foi tomando forma, imaginei que poderia 
criar a palavra a partir de qualquer som bonito ou extico. Em vez de amor, poderia exclamar, talvez:
18
           Apupuru baialu!
          Dificilmente algum se apaixonaria por mim ao ouvir uma coisa dessas. Seria considerado um louco varrido e ganharia uma camisa-de-fora. No, no podia 
ser assim. Estudei durante meses a histria das lnguas. Foi um passeio interessante, que me remeteu aos tempos em que surgiram as palavras, quando os homens viviam 
nas cavernas envoltos em peles sangrentas e tremiam a cada estrondo do trovo.
          Permitam-me essa digresso: a maior parte das lnguas faladas hoje em dia tem urna raiz comum. Uma raiz to distante que se perde na noite dos tempos. 
 o idioma indo-europeu. Durante sculos, lnguas como o latim, o snscrito e os idiomas germnicos pareciam to distantes entre si quanto a Terra e a Lua. Estudiosos 
no sculo XIX descobriram que essas lnguas nasceram do mesmo idioma.
          O portugus vem do latim, um idioma, indo-europeu, assim como o francs, o espanhol, o italiano. Mesmo o ingls, lngua no latina, possui um nmero imenso 
de palavras latinas. Com o passar dos anos,
19
o portugus incorporou palavras de outras lnguas: do francs, do ingls, do rabe, do japons. Todos os termos ligados a computadores vm, por exemplo, do ingls, 
pois a indstria de informtica surgiu nos Estados Unidos. Qualquer um fala em videogame, por exemplo. Game, em ingls, quer dizer jogo. A moda da culinria japonesa, 
que cresceu muito no Rio de Janeiro e So Paulo, trouxe um novo termo para a lngua: sashimi.  um prato feito  base de peixe cru, que nenhum restaurante japons 
deixa de servir. Mas a palavra  nipnica.
          Descobri, nas minhas investigaes, que eu no poderia usar qualquer palavra para falar de amor, simplesmente tentando lhe imprimir um novo significado. 
Como chegar para uma namorada, por exemplo, e dizer:
           Voc  um sashimi.
           Est me achando com cara de peixe cru? 
          Horrvel.
          No, eu deveria descobrir uma palavra esquecida e traz-la de volta para a lngua. 
          Onde caar uma palavra?
20
          Lembrei, ento, dos escravos.
          O Brasil teve um dos maiores contingentes de escravos do mundo. Vergonhosamente, foi o ltimo pas a abolir a escravatura. Navios cheios de negros atracaram 
em nossos portos. Apesar disso, poucas so as palavras de origem africana em nosso vocabulrio.
          Pobres negros! Aqui chegaram, perdendo a famlia, a terra, a liberdade. Deixaram sua marca na msica, e tambm na religio, com o candombl, a umbanda 
e a quimbanda. Criaram pratos como a feijoada, que se tornou uma instituio nacional. Boa parte dos brasileiros, como eu, tem uma pele amorenada, um cabelo cacheado, 
que indicam uma bisav africana, ou um tatarav escravo. Mas, e as palavras?
           H uma grande briga, hoje, criada pelos lderes negros, contra a palavra mulato, que querem abolir do idioma. Criada para definir o mestio de branco 
com negro, teria sido inventada a partir de mula! Como se fosse um xingamento. Tal como chamar hoje algum de burro, ou coisa pior. Para os negros,
21
hoje ern dia, uma prova de preconceito gravada na lngua como os grilhes na carne dos escravos.
          No tenho poder para retirar palavras do idioma. Mas achei que poderia prestar uma homenagem aos negros, introduzindo uma nova. Seria tambm uma forma 
de lembrar meus antepassados desconhecidos, de quem herdei este tom amorenado que tantos elogios j recebeu, modstia  parte. Fui a um centro de lnguas negras. 
Pesquisei.
          Horrorizado, descobri que alm dos nomes dos santos das religies afro-brasileiras e termos ligados a elas, pouca influncia havia dos escravos na lngua. 
A palavra acaraj vem do iorub, lngua falada por um grande contingente de escravos. Resolvi buscar no iorub a palavra que seria a razo de minha vida.
          Ifes nessa lngua, quer dizer amor.
          Bonita, pensei. Hoje, depois de tudo que aconteceu, sei que na poca fui absolutamente ingnuo. Achava que com uma palavra charmosa na cabea, no seria 
difcil fazer com que fosse falada. Imaginei cenas romnticas, como eu, numa canoa, pegando na mo de uma bela jovem e dizendo:
22
           Ife.
          At aquele momento, no tinha um plano.
          Pensava em me apaixonar, em falar ife aqui e ali.
          Tambm no podia imaginar que, menos de um ano depois, estaria diante de um tribunal, tentando dar explicaes para um juiz implacvel. Embora seja obrigado 
a reconhecer que uma coisa tenha levado a outra. Prefiro acreditar que os acontecimentos se sucederam como uma bola de neve que foi crescendo, crescendo, e que no 
pude mais deter.
          Tudo comeou a se precipitar quando fui despejado do apartamento. Foi humilhante. J tinham cortado a luz, mas eu me mantinha com velas. Depois foi a gua, 
mas por bondade do zelador do prdio tomava um banho semanal no apartamento dele. Ganhava pezinhos na padaria, do portugus que era um velho amigo meu. De nada 
mais precisava: bastava passar os dias nas bibliotecas, estudando as palavras.
          Durante meses, deixei de pagar o aluguel. No que planejasse dar um calote to grande. Passivo diante dos acontecimentos, talvez aguardasse alguma
23
soluo mgica. Esperava que um raio casse, algo acontecesse, para me tirar daquela situao. Finalmente, depois de idas e vindas  imobiliria, descobri que tinham 
trocado a fechadura do apartamento. No podia sequer pegar minhas coisas, pois fora interditado pela lei.
          Naquela noite, abriguei-me na sala do pequeno apartamento do zelador. Foi ele tambm quem me ajudou a entrar em meu antigo quarto atravs da janela de 
um vizinho. Consegui pegar algumas roupas e uns livros, mas foi s.
          Sei que, judicialmente, eu poderia lutar. Mas seria incapaz de encarar os olhos magoados de minha fiadora, uma velha amiga de minha me, que alm de viver 
com dificuldades, herdara minha dvida. Era melhor que vendessem as poucas coisas que eu tinha, para diminuir o valor do pagamento com que ela teria de arcar. Prometi 
a mim mesmo, um dia, pagar com juros a safadeza que eu estava aprontando agora.
          No fosse o remorso por desfalcar a pobre senhora, at me sentiria bem. Pois estava completamente livre. Toda a minha vida se resumia a uma
24
mochila, algumas roupas, um dicionrio e um caderno de anotaes. Melhor no ser dono de nada do que s possuir grilhes, pensei.
          J ouvira dizer que, muitas vezes, a gente precisa se libertar de tudo para, do nada, construir uma coisa nova. Resolvi partir, sem saber para onde. O 
zelador me emprestou uns trocados. Eu o abracei, emocionado  era o nico amigo que me restava na cidade. Em seguida, peguei um nibus e desci no ponto final, onde 
comeava a estrada.
          Olhei o asfalto sob o sol.
          Estendi o brao, fechei a mo, ergui o dedo,  espera de uma carona.
          Minha riqueza era ife.
          Minha vida era um sonho prestes a comear.
          Meu destino, decidi, as palavras iriam dizer.
          Um carro parou. Corri at ele e parti para o desconhecido.
25


DOIS

          Quando conto minha histria para os companheiros de cela, eles se admiram pelo fato de eu ter conseguido pegar uma carona. Nesses tempos violentos, quase 
ningum pra na estrada. Ainda mais para um rapaz de porte, como eu. Mas ningum estranharia se conhecesse Pedro Cuat. Logo que entrei no carro, eu  que tive certo 
receio, para dizer a verdade. Era um tipo completamente original: cabelos pretos, puxados, formando um rabo de cavalo. culos redondos, jeans rasgados e um casaco 
feito de retalhos coloridos. Ouvia rock no ltimo volume. Ao me abrir a porta, notei que colocava uma valise no banco de trs. Tambm joguei minha mochila. Logo 
que comeou a conversar, notei um acento estranho no seu portugus. Comeamos a falar aos berros, acima da msica. Logo entendi toda a histria.
          Pedro Cuat morava h anos fora do pas. Trabalhava em uma universidade prxima a Nova York,
26
em um instituto de pesquisas econmicas. Era, por incrvel que parea, um dos mais respeitados economistas do mundo. De tanto falar ingls, adquirira aquela espcie 
de sotaque. No que seu portugus fosse ruim: apenas, falava com cuidado, como se escolhesse os termos, dando uma pequena pausa entre eles. Divertido, sorridente, 
Cuat estava h apenas uma semana no Brasil. Entendi, com alguma dificuldade, que visitara os pais, em So Paulo, e que ia para o Rio de Janeiro participar de um 
simpsio sobre os rumos econmicos da Amrica Latina. Perguntou o que eu fazia.
          Respondi que no estava fazendo nada. Observei, sem prestar muita ateno, que era apenas um pouco mais velho do que eu. Pouco a pouco, a conversa foi 
terminando. Na verdade, eu j estava um pouco rouco, de tanto gritar para ser ouvido acima da msica. Deitado no banco, quase cochilei.
          Fui acordado pelo som de pneus rasgando o asfalto, um rangido insuportvel. Apavorado, constatei que o carro dava voltas sobre si mesmo, desgovernado. 
Cuat tentava, desesperado, segurar o
27
volante, mas o carro dava guinadas. Vi, em um instante, uma rvore se aproximando rapidamente do capo. Tudo ficou escuro, e eu esqueci de mim mesmo. 
          Acordei em um quarto de hospital. A perna estava com pequenas ataduras. O brao, dolorido. Quando me mexi, parecia, por um momento, que todo o corpo estava 
deitado em vidro modo. Um rapaz vestido de branco entrou no quarto, com duas chapas na mo.
            Que aconteceu?  quis saber.
          No vou me deter em detalhes. Depois de uma derrapagem, o carro batera em uma rvore. O jovem mdico examinou as chapas e verificou o que meu corpo j 
sabia: apesar do choque e da dor causada pela tenso, eu estava inteiro. Seu amigo, ele explicou, tambm no estava mal. Sofrera uma interveno cirrgica leve, 
para repor um osso da perna no lugar, e estava sedado. Deveria ficar em absoluto repouso durante uma semana.
           O carro est destrudo. Vocs tiveram sorte.
          Nesse instante, ele fez a pergunta que mudou tudo:
           Desculpe, mas qual dos dois  voc? Pela identidade no deu para descobrir.
28
          Mil ideias passaram por minha cabea, em um ziguezague. Tnhamos idades prximas, cabelos pretos e o ar um tanto enlouquecido. Os cabelos dele estavam 
to compridos que a foto da identidade deveria estar completamente diferente. E eu, de fato, tinha um tipo muito prximo ao dele. Quase sem perceber o que estava 
dizendo, afirmei:
           Sou Pedro Cuat.
          Reconheo que do ponto de vista judicial, essa primeira mentira pesou muito contra mim. Houve at quem me acusou de ter provocado o acidente. No  verdade: 
apenas aproveitei o que parecia ser o destino, como se fosse um nibus passando em direo ao futuro.
          Dita a primeira frase, as outras me vieram naturalmente. Expliquei que tinha importantes compromissos no Rio de Janeiro, e devia viajar o mais rpido possvel. 
Ainda pedi para usar um telefone, do qual fingi ligar para a famlia de Jlio, para que algum viesse acompanh-lo no hospital. Peguei a valise de Cuat. No foi 
difcil abri-la, nem chave tinha. Havia pouca coisa: algumas peas de roupa,
29
um envelope com passaporte e outros documentos, e uma grande pasta, cheia de papis. Tambm me apropriei, reconheo, de um mao de dlares, e de alguns cruzeiros, 
com os quais comprei s pressas uma passagem de nibus e parti, no sem antes recomendar que cuidassem muito bem de meu amigo acidentado, at a chegada de seus familiares.
          Sim, eu sei que no fui muito honesto. Para ser mais preciso, no fui nem um pouco honesto. Mas sabia que o verdadeiro Cuat estava fora de perigo. Era 
questo de tempo para se recuperar, retornando s atividades normais. E eu... confesso agora... descobrira que tinha um plano na cabea.
          Francamente, eu no sei como essas coisas acontecem comigo. Mas, muitas vezes, comeo a agir de uma determinada maneira, sem pensar muito no assunto. Mais 
tarde, descubro que  como se tivesse um plano anterior, bem formulado. Foi o que aconteceu com a troca de identidades. No nibus, durante a viagem, apesar do corpo 
dolorido, eu no conseguia dormir. Pois resolvera assumir, integralmente, o papel de Cuat, e queria me preparar para isso.
30
          H um conto de Lima Barreto que me influenciou demais. Chama-se "O homem que sabia javans".  a histria de um sujeito que no fala uma palavra dessa 
lngua. Mas, por falta de dinheiro, aceita um emprego de professor de javans. Logo, torna-se uma celebridade, por conhecer um idioma to difcil. Transforma-se 
em uma sumidade nacional, sem jamais ter falado uma palavra sequer da lngua. E mais: nunca chega a ser obrigado, realmente, a ensin-la.
          O conto ajudou a completar o meu plano. Se eu queria divulgar uma palavra, fazer com que ela fosse minha passagem para uma vida cheia de significado, eu 
no podia me restringir ao pequeno mundo dos empregos subalternos, dos escritrios fechados, dos apartamentos apertados. No, eu devia me envolver com as pessoas 
que detm os cordes do mundo, que influenciam a sociedade de maneira definitiva. O mundo dos economistas, nesta poca em que tanto se fala das atividades financeiras, 
seria um deles. Os economistas falam nos jornais, fazem planos, inventam medidas. Tudo o que dizem est na ordem do dia.
31
          Respirei fundo. Eu iria dar a conferncia no lugar de Cuat. Aproveitaria para conhecer meus pares. Perigo havia,  verdade. Mas Cuat vivia fora do pas 
h anos. Quantos poderiam conhec-lo intimamente? Era um risco mas, na minha situao, como no deixar de corr-lo?
          Uma ltima coisa me decidiu. Na pasta com os papis, havia um texto, aparentemente escrito pelo prprio Cuat, que serviria de base para a palestra. Junto 
a ele, a lista dos participantes. Ela estava l, como oradora principal.
          Ela! A economista mais famosa do pas, no momento. Nlia Fragoso. Assessora especial do governo brasileiro. Cabelos cacheados, que lhe davam um charme 
todo especial quando se virava para falar. Algum que merecia ouvir, de corao, a palavra ife.
          Nunca pretendi ser um vigarista, acreditem. Foi o nome dela que me balanou. Depois de meses estudando as palavras, eu sabia que poderia falar como um 
empresrio, um malandro ou um economista. Ningum duvidaria de minha identidade, imaginei.
32
          Desembarquei no Rio de Janeiro e fui para um hotel, onde me registrei com minha nova personalidade. A conferncia seria para o dia seguinte. Aproveitei 
para descansar e ler, muitas e muitas vezes, a palestra de Cuat. Tambm fiz uma lista dos termos que ele mais empregava. Nem dormi. Passei a noite diante do espelho, 
escolhendo os termos que devia usar ao me dirigir s pessoas, com voz pausada. No poderia, por exemplo, falar grias. Algum que vive fora do pas fala, por incrvel 
que parea, um portugus mais correto, cuidadoso, sem nenhuma das imperfeies gramaticais que dominam o cotidiano.
          Quando chegou a manh, eu estava pronto. Vesti as roupas de Cuat: as mangas eram um pouco longas, ele era mais alto do que eu. Mas lembrei de seu estilo 
relaxado, e as dobrei, com naturalidade. Na rua, comprei um par de culos redondos, sem grau, para ficar mais parecido. Peguei um txi e fui para o simpsio.
           claro que sentia um frio na barriga. No entanto, tudo foi muito mais fcil do que eu pensava. Havia lugares reservados para Pedro Cuat na mesa princi-
33
pal, com hora para falar, e, depois, junto a importantes empresrios para o almoo. Na primeira oportunidade, durante a sobremesa, consegui me aproximar da beldade 
dos nmeros, que comia ao lado de dois senadores. Fui cumpriment-la:
            Gostei muito da forma como analisa o desenvolvimento da Amrica Latina  expliquei.   uma viso macro que se apia em subsdios importantes das teorias 
econmicas secundrias.
          Eu no sabia o que estava dizendo. Mas as pessoas gostam de elogios feitos com palavras difceis. Economistas sempre falam em macro, micro, subsdios, 
e coisas do gnero. Ela sorriu deliciada:
           Tambm tive muito prazer em ouvi-lo, embora discorde da nfase que coloca na questo das taxas de juro.
          Devolvi o sorriso, como se tivesse ouvido o maior elogio do mundo. Ao ler a conferncia, percebera que Cuat falava em taxas de juro o tempo todo. Portanto, 
ela devia ter entendido o que eu dissera embora, pessoalmente, eu no compreendesse uma linha. Ficamos assim, por alguns instantes, sorrindo um para o outro.
34
          Tudo poderia ter terminado a. Com um belo almoo, alguns elogios. Podem no acreditar, mas eu estava at arrependido de ter abandonado o simptico Cuat 
no hospital. Foi ento que ela disse, com naturalidade:
           Mas teremos muita oportunidade de conversar sobre isso no fim de semana, no ?
           Fim de semana? 
          Ela me olhou, curiosa: 
           Esqueceu?
          Tomei uma golfada de ar. Por sorte, uma jovem loira, de tailleur, se aproximava, e me tomou pelo brao. Queria que eu conversasse com determinado empresrio, 
de quem era assessora. Fui, meio tonto. Onde  que eu deveria estar no fim de semana? Notei que Nlia me encarava, curiosa.
          Logo acabou a confuso. Quando falava com o empresrio, outra jovem me procurou, nervosa.
            A doutora Nlia pediu que eu falasse com o senhor. Teve a impresso de que h algum problema em relao ao fim de semana.
            que estou sem minha agenda e...  murmurei, espertamente.
35
          Surpresa, a mocinha me encarou como se eu fosse doido:
           Talvez tenha se confundido. O senhor est sendo esperado para o fim de semana em Angra.
          Percebi que a moa era apenas uma secretria. Era melhor me fazer de distrado  tipo que, alis, tinha tudo a ver com o verdadeiro Cuat. Nervosamente, 
ela pegou o endereo de meu hotel. Um carro passaria para me pegar na manh seguinte, para alguns dias na casa de praia de um importante industrial. Aparentemente, 
Cuat aceitara o convite por telefone, quando ainda estava nos Estados Unidos. Na ocasio, estariam presentes vrios empresrios e economistas importantes. Percebi 
tambm que Cuat parecia ser uma pea fundamental do encontro. Por qu?
          Se eu tivesse um pingo de juzo, reconheo que deveria ter fugido de toda aquela situao. Mas... e meu ife? E meu sonho? Era a chance de estar perto das 
pessoas que decidiam a vida de toda a nao, em muitos aspectos. No poderia haver lugar melhor para tornar viva uma palavra. Aceitei tudo que surgia alegremente. 
E, no dia seguinte, um carro com
36
motorista passou em meu hotel. No cais de Angra, uma lancha me esperava, e me levou a uma casa, em uma ilha particular.
          Casa? Parecia um castelo, de to grande. Muros cobertos por densa vegetao. Porto prprio. Praia de areias brancas.
          Ife! Seria esse o rumo que as palavras tinham escolhido para esse seu pobre servo?
          Resolvi aproveitar a oportunidade para conhecer um tipo de vida que s vira em livros, revistas e reportagens de televiso. Sabia, entretanto, que seria 
perigoso me trair. O primeiro passo era dar a impresso de que estava acostumado a tudo aquilo. Muitas vezes as pessoas se traem por ficarem surpresas com tudo que 
est a sua volta. Adotei um ar enfastiado, como se tudo aquilo fosse comum e cansativo. Como um grande economista, s deveriam me interessar as teses, as teorias, 
nmeros e livros. Sabia exatamente como devia ser minha expresso:  o que se chama, nos livros, de um ar blas. S quem no est acostumado com o luxo passa o tempo 
inteiro dizendo: "Que lindo!"
37
          Ningum suspeitaria, pelo meu olhar cheio de naturalidade, que eu fora despejado de um apartamento menor do que qualquer dos banheiros da manso. Nem que 
passara o ltimo ms sustentado por pezinhos amanhecidos.
          Mal entrei, ouvi uma voz entusiasmada:
            Cuat!
          Era Nlia, de biquini, com o dono da manso  um empresrio chamado Alcebades  e alguns amigos. Aproximou-se, sorridente:
            Ficamos com medo de que tivesse desistido de vir.
          Pela expresso de todos, percebi duas coisas. Ela realmente estava interessada em me ver, do ponto de vista pessoal. Os outros tambm, por uma razo que 
eu no conhecia. Deveria estar ligada ao trabalho de Cuat. Mas por que tanto interesse?
          Aparentemente, era um encontro agendado h alguns meses. O grupo era bem especfico: dois outros empresrios, e suas esposas, Nlia e trs economistas, 
ligados a grandes bancos e firmas de exportao. E eu... ou seja, Pedro Cuat.
38
          Observei cuidadosamente as pessoas: por detrs daqueles sorrisos, havia um grande mistrio. Alguma coisa queriam de mim. Notei  detalhe que ter grande 
importncia depois  que um dos economistas possua um anel de braso no dedo mindinho.
          O primeiro dia foi glorioso. Passeamos de lancha no maravilhoso mar de Angra dos Reis. Tomamos sol. No falamos muito de economia. Mas o segredo das palavras 
est em nunca se trarem. Mesmo ao fazerem piadas, aquelas pessoas envolvidas em um mundo de nmeros e teorias de crescimento usavam termos de um jargo que eu poderia 
chamar de eco-noms. Do tipo:
           Voc est to vermelho como as curvas de consumo.
            Sua barriga cresceu mais do que a inflao. 
          Logo descobri qual seria o papel de Cuat naquele fim de semana. Pelo que percebi, ele trabalhava tambm como assessor de projetos na Amrica Latina para 
um grande banco americano. Com a sutileza de elefantes, todos procuravam, aqui e ali, decifrar os segredos do banco  o que, para economistas e
39
empresrios, poderia gerar investimentos de milhes de dlares. At hoje no sei se Cuat havia aceito o convite sem desconfiar das intenes, ou por ter interesse 
em fazer negcios secretos em Angra. Fiz o que ele deveria ter feito, se fosse honesto: permaneci no mais absoluto silncio, sempre que tocavam no assunto. Lembro 
at hoje do economista de anel de braso comentando:
           Muitas decises do banco em que trabalho dependem do que as instituies financeiras do exterior esto planejando em relao ao Brasil. Uma informao 
desse tipo  muito valiosa... acho que me entende.
          Fingi que no compreendia a clara proposta de suborno. Por dentro, morria de rir. Eu, que nem tinha talo de cheques, discutindo os rumos da Amrica Latina. 
Como diz o ditado, o silncio pode ser de ouro: quando as pessoas querem acreditar em alguma coisa, colocam as palavras na boca da gente. Quanto mais eu me guardava, 
mais imaginavam que sabia de segredos importantssimos.
          Vivi dias de rei. Se eu estendia a mo, logo vinha um empregado com um suco, um drinque, um salga-
40
dinho. Comentei que estava sem roupas de vero, e no dia seguinte Alcebades me enviou um guarda-roupa completo  que infelizmente no pude levar, quando tudo terminou. 
Comi como um rei: camares, lagostas, frutos do mar. Meu nico trabalho era falar em economs e adquirir uma expresso misteriosa, quando necessrio.
          Nlia me olhava com admirao.
           Estou encantada com seu profissionalismo  dizia.
          Passvamos as tardes na praia, conversando sobre nossas vidas. Descobri que era uma pessoa solitria, apaixonada por falar de si mesma. O que foi uma sorte: 
eu podia me comprazer em ouvi-la, sem ser necessrio imaginar muitos detalhes de minha carreira nas universidades americanas.
          As palavras podem levar algum muito longe. Se eu fosse um vigarista de fato, teria chances de ter dado um golpe maior. Mas meu objetivo era claro, definido. 
Viver situaes romnticas era apenas o caminho para expressar meu ife. Assim, certa tarde peguei as mos de Nlia, beijei-as e disse:
41
           Ife.
            Voc tossiu?
          Parecia um incio pouco promissor para difundir uma palavra to bela. Expliquei que no era tosse: apenas falara com ternura a palavra mais bela da lngua 
iorub. Amor. Os lbios de Nlia se esticaram como um chiclete.
           Voc  to criativo. Se no vivesse no exterior, eu o convidaria para participar de um projeto que estou desenvolvendo para o Congresso Nacional.
          Cautelosamente, respondi que era apaixonado pelo projeto que desenvolvia. Suas pupilas brilhavam: por mais apaixonada que estivesse, continuava muito curiosa 
a respeito de meu pretenso trabalho nos Estados Unidos. Tentou especular a respeito, embora tambm me confidenciasse estar fascinada pela minha discrio. Mudei 
de assunto, como sempre fazia quando falavam de meu projeto secreto:
            Meus sentimentos so macro  murmurei. 
          Ela sorriu, terna.
            Voc  meu ife  repeti.
            Voc tambm  meu ife  ela disse.
42
          Quanta emoo! Todos os grandes artistas devem ter vivido a mesma situao, ao criarem uma obra. Samos passeando de mos dadas. Confesso que sentia tambm 
um certo desespero.
          Porque eu j colocara a palavra na vida de Nlia. De agora em diante, quando pensasse em mim, pensaria em ife. E eu, por quanto tempo mais poderia evitar 
as conversas sobre meu projeto econmico? Misso cumprida: eu devia partir.
          Mesmo porque j tinha um novo objetivo. Lera em um jornal que os membros da famlia real brasileira e outros nobres estariam fazendo uma grande conveno 
em Parati, quando seriam expostas as jias da Coroa. Parati e Angra esto prximas: no seria uma indicao do destino para meu prximo passo?
          Novamente, eu no formulara um plano em todos os detalhes. Mas, desde o princpio, o anel de braso do outro economista me atraa...
          As coisas, porm, precipitaram-se logo no final da tarde. Quando eu e Nlia voltamos, sorrindo como dois adolescentes, encontramos Alcebades na sala da 
manso, surpreso, com um telegrama na
43
mo. Olhava demoradamente para o papel. Em seguida, me encarou, e deu uma gargalhada.
           Apareceu um maluco  contou-nos.
          Simplificando: um economista paulistano, velho conhecido de Alcebades, avisava que chegaria na manh seguinte, acompanhado por... Pedro Cuat!
          Nlia comentou que deveria haver algum engano. Certamente, ao anotarem o telegrama, deviam ter entendido mal. O economista devia querer dizer que iria 
ao encontro de Pedro Cuat. Todos rimos, divertidos. Mas senti um friozinho na barriga.
          No ntimo, estava satisfeito em saber que o simptico Cuat estava bem. Mas devia sair de l o mais rapidamente possvel, sem dar na vista.
           uma situao difcil: se eu pedisse para ir embora, desconfiariam. Se demorasse muito, seria pior. Sorri, com um n no estmago, e disse que ia trocar 
de roupa para o jantar. Subi ao meu quarto. Observei, ao longe, os outros passeando de lancha. Pensei durante algum tempo. Cuidadosamente, abri a porta do quarto 
de meu colega que usava anel de braso. Como eu imaginava, o anel estava l, sobre um mvel: ele no se arriscaria a sair de lancha com
44
uma jia to preciosa. Coloquei o anel no bolso da bermuda. Tambm no podia me vestir muito, para executar meu plano de fuga. Peguei o pacote de dlares que me 
restava, enfiei na cueca.
          Desci para o jantar. Eu precisava impedir que o economista subisse, e desse pela falta do anel, fundamental para meu novo plano.
          Nunca fui to divertido, jamais brinquei tanto com as palavras. Degustei pela ltima vez o sufl de lagostas, namorei Nlia abertamente. Alcebades chegou 
a erguer brindes para ns dois. Eu, secretamente, planejava minha fuga.
          Observei o pessoal enquanto todos bebiam. Depois, inclu o economista do anel em um grupo que jogava cartas. Como essas partidas demoram, no meio de uma 
rodada disse que estava com dor de cabea e aproveitei para subir, deixando o dono do anel mergulhado em uma confuso de canastras. Ainda troquei um ltimo beijo 
com Nlia, e entrei em meus aposentos.
          Eis agora a prova de que tenho um lado honesto. Coloquei em um envelope todos os documentos de Pedro Cuat, com um bilhete desculpando-me pelos
45
inconvenientes causados. Mais tarde, o prprio Cuat deu um depoimento atenuando minhas faltas, em funo da delicadeza de meu gesto  embora jamais tenha me perdoado 
pelos dlares extraviados e por t-lo deixado sozinho no hospital, logo aps o acidente.
          Sa cuidadosamente pelos fundos e me escondi nos rochedos. Se ouvisse o grito do economista do braso, partiria imediatamente. Mas ele deve ter capotado 
aps a noite animada. Assim, pude esperar a madrugada, pois seria perigoso pegar o mar  noite, Aos primeiros raios do sol, parti na lancha. J tinha verificado 
como chegar prximo a Parati. No era fcil, para quem, como eu, no estava acostumado a navegar. Contei com a sorte, e no me dei mal.
          Algumas horas depois, podia avistar a pequena cidade histrica. A, dei o lance final. Com uma ferramenta que levara, furei o fundo da lancha. Agarrei 
uma bia, e deixei que ela afundasse. Vestido apenas com uma bermuda, uma camiseta e o anel de braso, permiti que as ondas me levassem.
          Eu podia ser tragado pelo mar. Ou vencer.
          Tudo ou nada, eis a questo.
46


TRS

           Nunca vou saber exatamente o que aconteceu. Fiquei horas ao sabor das ondas. Ao contrrio do que esperava, no fui levado at a praia, como um nufrago. 
O mar me conduziu para a direo errada. O sol batia no meu rosto, inclemente. Perdi a conscincia, de tanta angstia e desespero ao perceber que meu plano estava 
dando errado. Com um ltimo alento, cravei os dedos na bia, e isso foi o que me salvou.
          S fui resgatado no fim do dia, por uma lancha de turistas. O condutor me examinou, surpreso. No me conhecia. Um dos passageiros observou o anel e disse 
a frase mgica, por que eu tanto ansiava;
           Olhe o anel. Deve ser de famlia nobre.
          O dono da lancha fez o que eu tinha previsto: levou-me diretamente para o ninho de nobres que vivia em Parati, acreditando que eu seria parente deles.
47
          Acordei em um confortvel quarto de hotel, limpo e fresco. Uma jovem vestida em um traje azul, de seda, longo e esvoaante, me encarava. No posso dizer 
que fosse bonita: na verdade, alm da pele cheia de crateras, causadas por uma acne pior que o grande Canyon, tinha um leve bigode. Ela sorria:
           Que bom que ests bem.
          Expliquei que no sabia onde estava. Ela perguntou quem eu era. Respondi, simplesmente:
            Julius Castellana.
          Eu escolhera, ao formular o plano, um sobrenome italiano, porque as famlias tradicionais brasileiras se conhecem bem entre si. Tm paixo por nomes como 
Caio, Fbio, Joo, Mariana, Fernanda, Maria Isabel. Castellana  um nome ligado  nobreza, pois lembra castelos, condes e brases. Alm disso, ouvira o verdadeiro 
dono do anel comentar que era de famlia italiana.
          No preciso entrar em detalhes sobre a conversa que se seguiu: Maria Isabel  esse era o nome da jovem  pertencia  famlia dos Condes da Barca, que tm, 
inclusive, direitos sobre a coroa portuguesa.
48
Como vrias famlias da nobreza, andava um tanto arruinada. Ela e os irmos haviam montado aquele hotel em Parati, com os restos da fortuna familiar. Tambm era 
no hotel que, atualmente, se reuniam os membros da aristocracia vindos de outras cidades para a grande festa e a inaugurao do museu com as jias da coroa, sobre 
a qual eu lera no jornal, e que me dera a ideia inicial para o plano.
          Eu nunca tinha estado diante de uma princesa de verdade.  interessante, porque desde crianas ouvimos histrias de fadas, nas quais sempre um plebeu encontra 
uma princesa, ou vice-versa. Confesso: Maria Isabel era bigoduda, tinha voz fanhosa, e um perfume que lembrava bolor. Verdade. Tudo nela parecia antigo. Eu me apaixonei 
irremediavelmente. Seria impossvel explicar por qu. S posso entender aquele amor sbito porque, de certa forma, desde criana eu sonhara com uma princesa. Era 
como se pudesse dizer:
           Cheguei l!
          E por essa expresso se entenda: subi na vida!
          Soube imediatamente que seria fcil lhe falar de ife.
49
          Havia assuntos urgentes a explicar: ela e todos os outros membros da nobreza acreditaram piamente na minha verso do naufrgio, de um iate prximo ao Rio 
de Janeiro. Houve quem estranhasse no ter lido nada nos jornais. Mas eu sorri tristemente e comentei:
            Os jornais s.falam de crimes.
          Todos concordaram, gravemente. Mais uma vez desde que comeara minha saga, fingi ir ao telefone para falar com minha famlia, em Npoles. Pedi  telefonista 
o cdigo da Itlia, e falei com um nmero qualquer. Ainda me lembro da algaravia assustada de quem me atendeu do outro lado do mundo.
          Naturalmente, eu criara um simptico sotaque italiano para me expressar. Contei que vivia no Brasil h alguns anos, sozinho, mas me dedicava  ecologia 
 algo que combina bem com prncipes. Apenas ligara para a famlia com o objetivo de tranquiliz-los. Pessoalmente, gostava de viajar pela selva amaznica. Tomei 
o cuidado de entremear minhas frases com algumas palavras italianas, que aprendera no bairro do Bexiga, em So Paulo. Deu certo.
50
          S corri certo risco quando um dos nobres presentes comentou animado:
           Conheo algum de tua famlia. O conde Ugo.
          Engoli em seco. Como seria o tal conde? Comentei:
           H tempos que no o vejo.
          Uma frase genrica como essa sempre ajuda quando no se sabe o que dizer. O nobre sorriu:
           Eu tambm. Mas tenho muita estima por ele. Sempre que vou a Roma, lhe fao uma visitinha.
          Sorri intimamente. Escapara por pouco. Achei divertido o "sempre que vou a Roma". Coisa de ricos, que vo  Europa como eu ao ponto de nibus.
          Todos estavam encantados pela minha presena, pude perceber. A maioria era aparentada entre si: para no se misturar com a plebe, as famlias nobres vivem 
trocando casamentos. Eu era a novidade, o tempero, que dava charme ao encontro. Horrorizados com a minha tragdia, solidrios com meu sofrimento, convidaram-me a 
passar alguns dias no hotel, at que me recuperasse. Tambm poderia participar da festa de abertura da exposio das jias em trajes de gala  que pertenciam h 
sculos  famlia de Maria Isabel.
51
          Novamente, foram dias de glria. Discretamente, eu examinava diariamente os jornais. Foi assim que soube do interesse da polcia em localizar um certo 
Jlio Malatesta... eu! Pedro Cuat fora um traidor, pensei, ao dar  polcia meus documentos verdadeiros que deixara no hospital, como se fossem dele. No devia 
me preocupar, no momento. Sem documento algum, mas com um anel no dedo e doces palavras na boca, eu era o mais recente membro da aristocracia em Parati.
          Logo eu e Maria Isabel ficamos ntimos. Na minha loucura, no percebi que, com aquele bigodinho, ela deveria estar louca para achar um gal  e eu parecia 
um bom partido. Ela me emprestou trajes de seus irmos (e tambm gastei alguns dlares que estavam escondidos em um saquinho plstico, na bermuda, na butique de 
Parati), e eu a ajudei a organizar a festa e a exposio. Soube que as jias eram valiosssimas, e que o governo pagara um grande seguro para ressarcir a famlia, 
se fossem roubadas. Olhei encantado para a coroa: jamais vira uma de perto. Imaginei Isabel com a coroa na cabea, sentada em um trono. E eu, ao lado.
52
          Triste, eu sabia que meu destino no era ser rei. Com o corao partido, no era capaz de me iludir: o fim de minha misso estava prximo. S no poderia 
partir sem deixar minha palavra para sempre cravada na vida da aristocracia. Assim, certa noite em que passevamos na praia sob o luar, tomei as mos de Isabel e 
disse:
           Ife.
          Ela me olhou com ar esquisito:
            Doeu alguma coisa?
           Ife quer dizer amor, em iorub, Maria Isabel.
           Amor?  Ela suspirou.  Nunca tinha ouvido essa palavra.
           Ife, iorub, Isabel  repeti.  Se sua antepassada libertou os escravos, voc deveria homenagear a raa negra com essa palavra.
          Ela sorriu nervosamente:
          .  que nunca ningum me falou de amor.
          Eu a abracei emocionado.
            Eu nunca a esquecerei, Maria Isabel.
           Nem eu, Julius Castellana.
          Mal sabia ela o quanto de verdade havia naquelas palavras. Ns nos beijamos romanticamente. Con-
53
fesso que fiquei um pouco incomodado pelo roar do bigodinho  mas a paixo  cega.
          No dia seguinte, aconteceu a grande festa de gala. Foi aberta a exposio, com um jantar digno de reis e prncipes. Eu ajudei em tudo: na organizao, 
no menu, na escolha dos vinhos  j que, como nobre italiano, todos acreditavam ser imenso meu conhecimento sobre enologia. Para no dar na vista, pedi, na lista 
que me deram, os mais caros. Se no fosse um detalhe, talvez eu pudesse ter ficado meses a fio em Parati. Durante o jantar, cometi um engano fatal. Eu estudara as 
palavras, mas no os gestos. No sabia o que fazer com os caroos de azeitona. Disfaradamente, coloquei o primeiro no bolso. Era pouco. No prato, vrias outras 
azeitonas me encaravam  o prato principal era um tipo de bacalhau. Rapidamente engoli todas e escondi os caroos. Finalmente, suspirei aliviado. Ningum havia notado.
          Azeitonas traioeiras!
          Mal terminou o jantar, minha princesa adorada levantou-se: quis fazer um discurso.
            com imensa alegria que, nesta noite fundamental para todos aqueles que ainda amamos nossos
54
reis, recebemos aqui um rapaz que em tudo contribuiu para o engrandecimento desta festa. Um rapaz que veio dar nessas praias trazido pelas ondas do mar, sem cujo 
apoio no teramos tal deslumbramento. Nosso amigo Julius Castellana vai lhes falar sobre a causa monarquista italiana, como convidado especial, e, em seguida, falar 
o herdeiro presuntivo ao trono brasileiro, o prncipe de Orleans e Bragana.
          Eu? Sorri habilmente. Maria Isabel j me preparara, para falar, pois todos estavam muito interessados nas palavras de um nobre italiano. Notei que alguns 
jornalistas me fotografavam. Sorri vaidosamente  mais tarde as fotos foram provas no processo, mas naquele momento no pensei no assunto -, mexi delicadamente 
no anel de braso, para que todos vissem. E iniciei meu discurso:
           Sou muito grato a todos os que me acolheram, em um momento to difcil. Espero, antes de mais nada, que meus outros companheiros de desventura tenham 
sido recolhidos do mar por gente to bondosa, embora estranhe a falta de notcias a respeito. Gostaria de falar sobre meus esforos junto 
55
nobreza italiana, em prol da causa monarquista, e da minha admirao pela famlia de Orleans e Bragana que...
          Plim!
          Um caroo de azeitona caiu de meu bolso. O palet estava furado. Por uma dessas tragdias inexplicveis, o bolso ficara em cima do prato. O carocinho bateu 
na porcelana com um tinido. Aterrorizado, vi que todos me encaravam, surpresos.
          Plim!
          Outro carocinho desabou sobre a mesa. E outro. E outro. Ouvi um murmrio. Os aristocratas estavam chocados. Pode haver coisa mais plebeia do que um caroo 
de azeitona caindo do bolso em um jantar elegante?
          Perdi o controle das palavras. Nem sei o que mais disse. Ouvia os nobres murmurarem:
            falso... no tem sangue azul...
          E os caroos... plim, plim!
          Pretextei alguma coisa. Nem me ouviram. Levantei, como se me sentisse muito mal, sa. Eles me olhavam como a um pria.
56
          Corri para meu quarto no hotel. Devia fugir antes que chamassem a polcia. Peguei minhas roupas atabalhoadamente. Nesse instante, gelei. Algum abria a 
porta.
          Era Maria Isabel, totalmente descomposta. Lgrimas rolavam pelas suas faces. Tinha nas mos uma valise: Sem dizer uma palavra, me entregou. Eu lhe perguntei, 
surpreso:
           J sabe de tudo?
          Ela abanou a cabea, infeliz. Fui at ela.
            Venha comigo, princesa. Sempre sers uma rainha.
           No, no posso. S me digas quem s, na verdade.
           Jlio.
          Maria Isabel depositou alguma coisa sobre a cmoda, foi at a porta, olhou para mim.
            H um nibus que parte em uma hora. At amanh, impedirei que o denunciem. Ife, Jlio.
          Foi-se embora, com o porte de princesa que eu tanto admirava. Olhei para a cmoda. Era incrvel! Havia deixado as chaves do museu, onde estavam em exposio 
as jias da coroa.
57
          De fato, nem ela deveria ter as chaves. Mas, durante a organizao da mostra, usamos muito a entrada de servio. No entendi, quando terminamos a montagem 
da exposio, por que ela guardara a chave. Com o corao apertado de emoo, percebi o quanto ela me queria. Sabia que eu era um farsante, e deixava que levasse 
as jias da coroa, que h tanto tempo estavam com sua famlia. Podia haver maior prova de ife?
          Peguei a valise, sa correndo. Naquela noite de festa, ningum estava cuidando especialmente do museu. Havia um guarda na frente, e um segurana na parte 
de dentro. Eu me esgueirei pelos fundos, e abri a porta cuidadosamente. Quase derrubei o segurana, que dormia numa cadeira junto  pia da cozinha do museu, ao lado 
da garrafa trmica. Sem fazer um rudo, tranquei a porta do cmodo pelo lado de fora, usando a prpria chave que ele esquecera na fechadura. O segurana nem se mexeu: 
roncava. Eu mesmo ajudara a montar as vitrines. Sabia que no tinham alarme especial: com uma chave de fenda, tirei o vidro das molduras. Coloquei as jias na valise 
e fugi.
58
          De nibus. Quando procurassem o assaltante, jamais pensariam em uma fuga to simples. Parariam carros em estrada, mas jamais um tranquilo viajante de nibus. 
Refleti que Maria Isabel tambm nisso quisera facilitar minha fuga, dando o horrio do nibus.
          Fui embora com o corao partido. Minha princesa mostrara uma paixo inenarrvel. Nunca pensei que o ife pudesse ser to bonito.
          Tambm nunca pensei que fosse um asno to grande quanto fui, como se ver mais tarde.
          Naquele momento, porm, s sabia de uma coisa: eu devia me esconder, se no quisesse ser pego.
          O ponto final do nibus era no Rio de Janeiro. Cidade grande, ideal para desaparecer e, a bordo de palavras novas, tornar-me outra pessoa. Da rodoviria, 
peguei um nibus e desci em frente  favela.
          Ife!
          Eu estava pronto para viver dias bem arriscados.                                                                                                       
59


QUATRO

            Moo,  moo, me d uma ajudazinha aqui? O sinh sabe, mas  que eu num s daqui do Rio no sinh, e t tendo de voltar pra minha terrinha, l pras 
bandas de Pinda, o sinh conhece?
            No, mas... estou com pressa.
            Mas  disso mesmo que eu tava falando, porque tambm t que t numa pressa desgramada, porque minha me t doente l na terrinha, e eu t que no me 
aguento pra voltar, e  por isso que eu t muito precisado de falar com o moo, me desculpe se tomo seu tempo. Mas  que comprei esse bilhetinho aqui da loteria, 
trs anteontem, e deu o milhar inteiro, o sinh pode conferir, mas no sei nem onde receber e eu tava querendo que o sinh me ajudasse...
            Bem...
             s me dar um adiantamento, e o sinh fica com o bilhete, que eu nem sei mesmo onde receber!
60
            S estou com alguns trocados.
           Ah, mas eu vi logo pelos seus olhos que o sinh  dos honestos, vai me pagar direitinho o que vale, verdade?
            Isso! Vou pagar exatamente o que vale.
          O sujeito me pagava e partia, certo de ter dado o golpe do ano no caipira. Eu esquecia meu sotaque e voltava para o barraco do morro onde me abrigara. 
 incrvel o nmero de pessoas que ainda querem bancar as espertas e compram um bilhetinho premiado. Foi assim que sobrevivi, com a barba por fazer, tnis sujo de 
terra, camisa xadrez. Mais uma vez, eu provava minha tese: o modo de falar me dava credibilidade.
          A vida na favela  dura. Um estranho como eu demora a se adaptar. Fui lento, cauteloso. Fiz poucos amigos. Andava cercado de malandros, mas nenhum sabia 
exatamente do que o outro vivia. A linguagem dos malandros  cautelosa e repleta de termos que funcionam como um cdigo. Muitas palavras que todos usam nascem no 
meio da malandragem. Curtir, no sentido de viver um grande pra-
61
zer,  uma delas. Da gria dos malandros, passou a ser aceita no dia-a-dia das pessoas mais srias. Outra palavra que vem sendo dita cada vez com maior frequncia: 
galera. No vocabulrio atual, quer dizer turma, grupo de pessoas afins. Foram os malandros que a tornaram viva, novamente. Porque, no sentido original, galera era 
um barco propulsionado pela fora dos reinos de escravos condenados por algum crime.
          Com cautela, fiz amizade com o pessoal do morro. Fui ajudado por uma nova paixo, que conheci numa roda de samba, no fim de semana: Valdete.
          No quero que.se pense que sou volvel. Francamente, sempre coloquei minha misso acima de qualquer inclinao pessoal. Se me interessei por tantas mulheres, 
foi tambm pela chance de falar em ife, de divulgar minha palavra pessoal. Mas, desde o comea, senti uma vibrao por Valdete. Morena, cabelo pixaim, blusa vermelha 
e bermudas brancas, ela, se contorcia na quadra da escola de samba. Era algum, a quem gostaria de falar sobre ife. Cheguei at ela, no melhor estilo da malandragem:
62
           T a fim de uma loira gelada? 
          Ela me olhou surpresa:
           Qual  a tua, no v que estou com meu gato?
          Esfriei. No queria levar tapas de namorados raivosos. Examinei quem estava na direo de seu olhar. Um garotinho preto me encarou, com ar selvagem:
           No mexe com a minha me! 
          Estiquei meu melhor sorriso:
           D um tempo, simpatia. Deixa a tua me se divertir. 
          Ela riu, alegre. Um rapaz aproximou-se.
           Esse a t te torrando, Dete?
            Deixa ele falar, Pinho. Falar num mata.
          Logo nos apresentamos. Ela era Valdete, sambista de fim de semana e cozinheira em um buf elegante de segunda a sexta. O menino, Bruno Giordano, era seu 
filho , mas ela estava viva desde que o marido morrera em um tiroteio no morro. Pinho era seu mano. Comeamos a conversar e nos tornamos amigos. Eu me apresentei 
como Ju. Somente Ju.
63
          Ningum me reconheceu,  claro. Mesmo porque, no morro, as pessoas fazem questo de no se reconhecer, principalmente se topam com algum procurado pela 
polcia. Eu havia acompanhado meu caso pelos jornais. As fotos ao lado de Maria Isabel estavam um tanto desfocadas. Mas o escndalo do roubo das jias da Coroa demoraria 
a ser esquecido pela imprensa. Comovido, eu era capaz de ler nas entrelinhas das notcias: Maria Isabel dava detalhes errados a meu respeito, na investigao. Como 
se fizesse questo de que eu no fosse descoberto. Ife!  Como  grande a paixo.
          Por precauo, eu saa pouco. Comecei a frequentar as rodas de samba, iniciei um namoro com Valdete. Nunca, porm, consegui que ela dissesse ife.
           Ife  eu dizia.
           Arre, que palavra mais esquisita, parece espirro!
           Quer dizer amor.
           Ento por que voc no diz amor de uma vez?
            Prefiro ife.
            Pois olha que eu no prefiro coisa nenhuma, que vocs homens so todos assim: j vo falando
64
de amor, amor, mas quando a gente precisa, somem. Todos vocs somem!
          Tentava fazer com que ela acreditasse no meu ife. Vivia desconfiada.
          Um dos meus objetivos, ao me refugiar no morro, era entrar em contato com algum que comprasse as jias da Coroa. No se pode, com pedras to raras, bater 
em uma joalheria: logo descobririam o furto. Queria encontrar um receptador.
          Meus novos amigos me ajudaram. Expliquei que eram jias de alto valor. Numa noite escura, tomamos um carro e fomos at uma manso, em Niteri.
          Junto com Pinho, que deveria receber uma comisso pela ajuda, encontramos um senhor elegante, grisalho. Ele pegou pea por pea, cuidadosamente. Com uma 
lente, examinou as pedras. Raspou o ouro da coroa. Testou os diamantes da gargantilha, sempre com ar srio. Eu me sentia sufocado.
          Havia decidido mudar de vida. Com aquele dinheiro, pretendia me mudar para Manaus, junto com Valdete e o filho. L, poderia abrir um negcio
65
e divulgar minha palavra de forma menos arriscada. Queria, enfim, sossego e paz.
            So falsas.
            Ah!?
          Todas as pedras, todos os metais, falsos.
          Quase urrei. Eu fora enganado!  por isso que a vbora de Maria Isabel, facilitara o roubo e a fuga. Imagino que ao longo dos anos aquela famlia nobre, 
mas arruinada, fora vendendo pedra por pedra, diamante por diamante, e refazendo as peas com imitaes. Ningum jamais desconfiaria, j que h sculos as jias 
estavam na famlia. A prfida planejara tudo: com minha fuga, receberia o seguro milionrio. (Com o corao partido, sou obrigado a reconhecer que seu plano deu 
certo. Ningum jamais acreditou que eu levei jias de lato. Maria Isabel e a famlia receberam o seguro, venderam o hotel em Parati e hoje vivem em um castelo na 
Espanha,  minha custa. Pior: a prfida casou com o tal segurana que roncava  tinham combinado tudo, os fingidos.)
          Nunca eu tivera tamanho choque. Era um golpe financeiro, e moral. Nem consigo supor quando ela
66
descobriu que eu era um farsante. Talvez no momento em que falei que era um nobre italiano. Ou quando murmurei meu primeiro ife. Eu fora cruelmente golpeado. S 
consegui sair do joalheiro ajudado por Pinho, pois mal me aguentava nas pernas. Levamos as jias, que foram doadas para a escola de samba.
          De repente, tudo parecia piorar. Desisti do golpe do caipira, subitamente, ao chegar na rodoviria e ver um grupo de policiais vigiando as pessoas. Com 
informaes recolhidas aqui e ali, descobri que procuravam um vigarista que dava o golpe do bilhete premiado. Eu.
          O dinheiro que me restava era pouco. Diminuiu mais ainda, porque tive um ataque de conscincia e lembrei de minha fiadora, que fora obrigada a pagar meu 
aluguel atrasado. Pus uma boa quantia em um envelope e enviei para ela. Senti um certo alvio.
          Se eu quisesse, poderia ter me integrado a um dos bandos que viviam no morro. Sei que ningum considerar isso uma atenuante, mas j tinha desco-
67
berto que as palavras podiam me levar para um beco sem sada. Chegara  concluso de que as palavras eram como um barco, capazes de me levarem a qualquer mar. O 
capito, porm, sempre seria eu, e desejava tomar novos rumos.
          Quem sabe, casar com Valdete, criar o menino, me acalmar.
          A ambio, mais uma vez, foi a responsvel por minha perda.
          Sem fundos,  beira da falncia completa, li no jornal uma notcia que me interessou. Um famoso contraventor, conhecido patrono das escolas de samba, iria 
dar uma festa para receber uma atriz americana em visita pela cidade, Shirley Mac Britton. Junto  notcia, vi a foto da atriz.
          Ainda era bela, apesar da idade. Lembrei com carinho de seu rosto nos filmes de minha adolescncia.
          E, subitamente, minha ambio ficou desmesurada.
          No queria mais gravar ife simplesmente no portugus. No! Eu levaria ife para o ingls, turco, japons. Minha palavra poderia ser a nica falada em todos 
os idiomas. J imaginava os astros de Hollywood falando:
68
           Ife, all rightl
           Ok, ife! 
          Ah, que delcia!
          S precisava entrar na festa, que seria oferecida em um dos mais fechados clubes da cidade. L, eu me aproximaria da atriz, conduzido pelo charme das palavras. 
Pensei com tristeza em Valdete. De todos os meus ifes, era quem mais tinha me tocado. Mas eu estava cego de ambio, toldado pelo projeto de ser um patrono de todos 
os idiomas. Confiava em mim, sabia que ao encontrar a atriz eu diria as palavras certas.
          Procurei o endereo do clube na lista telefnica. Em seguida, fui at uma loja de aluguel de roupas chiques e escolhi um smoking. No havia dvida: eu 
ficava lindo de smoking!
          Na noite da festa, fui at o barraco de Valdete. Bruno estava dormindo sozinho , a me sara para trabalhar e no voltara. Dei um beijo no garoto, e deixei 
um presente. Talvez nunca mais voltasse a v-los.
          Ainda no tinha vestido o smoking,  claro. Na verdade, estava com um macaco sujo de graxa. 
69
O smoking? Eu o levava muito bem guardado em uma maleta pequena, dessas que usam tcnicos de aparelhos de som.
          Cheguei ao local uma hora antes do incio da festa. Na entrada, havia uma garota loira, com um impecvel vestido preto. Terminava de se arrumar, pronta 
para receber os convidados. Aproximei-me, confiando no meu jeito de falar:
           E a, gata, tudo certo? Vim dar um truque no grilo do som.
           Que problema de som  esse, no me avisaram nada!
          Ela pegou o telefone. Se ligasse para o gerente, eu no entraria nunca. Virei de costas, fingi que ia embora.
           Tudo certo, beleza. Se no tem grilo, no tem. Eu t  doido pra voltar pro meu canto, que esses problemas de ltima hora s me do dor de cabea. C 
d um ok pra gerncia e diz que me dispensou, certo?
          Imediatamente, ela abanou a franja loira.
            No v embora de jeito nenhum, esta festa  importantssima. Onde j se viu? Entre e conserte
70
esse som depressa, antes que os convidados cheguem. Seno eu falo com o chefe da manuteno e voc vai ver!
          Sorri, deliciado, e entrei.
          Corri para o banheiro, tirei o macaco, pus o smoking e fiquei trancado durante uma hora e meia, lendo o jornal. Quando ouvi o barulho dos convidados, 
sa.
          Era uma festa deslumbrante. Mesmo eu que j comeava a me acostumar com a vida elegante, fiquei de boca aberta. Cascatas de camares, nas mesas. Coquetis 
de todos os tipos. As paredes forradas com panos dourados. Mulheres que pareciam de cristal, de to chiques. Homens de smoking, srios.
          Por que me aprofundar nos detalhes?
          Tudo correu s mil maravilhas. At mesmo junto  atriz eu consegui chegar. Novamente, encontrei a palavra certa. Ela acabara de lavar as mos, e contemplava 
o mar, do terrao. A noite estava linda, romntica. Lembrei dos milhares de filmes de Hollywood e fiz o que qualquer astro teria feito. Sim-
71
plesmente me aproximei dela, que estava sozinha, com ar melanclico, e disse:
           Ife.
          Ela me olhou espantada, pois no entendia uma palavra de portugus ou iorub. Em seguida, a tomei nos meus braos e a beijei. De to surpresa, ela se abraou 
a mim. Sorrimos um para o outro. Eu me sentia o prprio Robert Redford.
          Peguei sua mo, e ela deixou que eu a tocasse, doce. Juntinhos, voltamos  festa. Em torno de ns, o ar parecia feito de estrelas.
          Foi quando ouvi o grito:
             ele!
          Reconheci a voz. Nlia! Estava no centro de uma roda, me apontando histrica. A seu lado, Alcebades e o verdadeiro Pedro Cuat, com os cabelos presos 
em um rabo-de-cavalo. Surpreso, virei o rosto em direo  sada: haveria tempo de correr?
            Julius!
          Maria Isabel, com um grupo de nobres, me encarava, apavorada. Menos por me descobrir do que por receio de que eu a denunciasse, creio.  claro
72
que se comportou como vtima, porque de boba no tinha nada. Estendeu os dedos cheios de anis  agora verdadeiros , e me apontou.
          Houve um grande alarido. Ouvi as palavras "peguem, peguem". Os empregados vieram da cozinha, e... surpresa! Valdete fixava-me em lgrimas, com uma colher 
de pau na mo:
           Ju, seu safado!
          Era a cozinheira da festa! Que vexame. Rapidamente, arrastaram a atriz, que no entendia coisa alguma. Senti braos que me rodeavam. Algemas.
          Seria intil desfilar todos os itens da minha priso. Todos me abandonaram, menos Valdete e Pinho. Se no fosse por eles, sequer advogado teria. Tentei 
me explicar, dizendo que tudo no passava de um sonho intelectual. Fiquei detido, cercado por palavras desagradveis: falsa identidade, peculato, apropriao indbita, 
estelionato, vigarice.
          A cada ms, sou julgado por uma nova contraveno.
          Sou culpado, reconheo. Menos perante a lei do que diante de mim mesmo. Porque tive um sonho
73
intelectual e os pensamentos no bastam, quando se tratam de palavras. Eu vi a vida como se fosse um grande dicionrio, e por isso nunca pude supor que a economista 
famosa estaria na festa do contraventor, que a atriz importante dividisse o mesmo espao que minha namorada do morro. Pensei nas palavras como diamantes solitrios 
e, no entanto, elas criam relaes, promovem mundos. Se as palavras passam de pessoa para pessoa,  porque os seres se conhecem, se comunicam, fazem trocas. Palavras 
so pontes entre todos ns.
          Eu podia ter escrito um livro, criado uma poesia. Escolhi outro caminho e terminei aqui, na priso.
          Prefiro no falar sobre a dura rotina da cadeia. Dentro de dois anos estarei livre, e espero usar as palavras como velas enfunadas de um barco que me levar 
para outro destino. Talvez, volte a estudar, mas no abandonarei os meus sonhos.
          S tenho uma certeza: ife!
          Que seria de mim sem a Dete? Vem toda semana, com um frango assado e uma dzia de laranjas. No se cansa de me recriminar.
74
           Eu devia saber que era muita areia pro meu caminho. Mas fui deixando me levar pelas palavras doces que voc disse... e olha eu aqui, na cadeia, cuidando 
de safado. Destino de mulher de morro  sofrimento, sempre me disseram.
          Sempre tomo sua mo, beijo e peo:
            Dete, no me deixa sozinho. Volta sempre, por favor.
            S se eu for louca, devia esquecer que voc existe... Safado... Alm de malandro, j tava correndo atrs da estrela de cinema. Safado, safado!
           Dete, eu te amo. Voc  meu ife.
          Posso garantir: foi a primeira vez que senti verdade nessa palavra. Com Nlia, Maria Isabel, a atriz americana e at mesmo com Valdete, no morro, tudo 
era mais encantamento pela palavra, pelo sonho. Agora, tudo se transformara em sentimento puro. Talvez, por isso, ela tenha compreendido, finalmente.
          Disse, pela primeira vez:
           T certo, Jlio, safado. Voc tambm  meu ife, e de hoje em diante s vou chamar voc desse jeito que gosta tanto, de ife.
75
          Enxugou uma lgrima e partiu.
          Desde esse dia, s me chama de ife. Os outros presos ficaram curiosos pela palavra, e expliquei o significado. E brincam de usar ife com as namoradas, 
nas visitas semanais.
          Eu sou ife. E tambm ouo, quando eles murmuram, de mos dadas.
           Ife, ife.
          Foi s assim que entendi: caar as palavras simplesmente pouco significou. Inventar uma tambm. Porque as palavras precisam do nosso sangue para viverem 
e brilharem na constelao das existncias. Sobrevivem com nossos sentimentos, sonhos, mgoas e aspiraes. Sozinhas, so ocas. Junto com nossas vidas, atingem a 
eternidade. No era suficiente inventar um termo, mas torn-lo to vivo quanto o sentimento que representava. Hoje, sei que ife vale porque descobri seu significado 
em minhas entranhas.
          Eu, Dete e o garotinho Bruno. Sei que um dia estaremos juntos, reunidos, e que tudo que estou passando agora ser s o passado. Minha vontade
76
de criar tambm no ser exterminada pelos caminhos tortos que escolhi. Porque, assim como milhares de palavras, h milhares de emoes e experincias para serem 
vividas. Algumas, talvez, nem tenham nome. H receitas de cozinha, cores, produtos, mquinas que ainda vo ser inventadas, e que vo precisar de nomes. E eu estarei 
sempre pronto, caando novas palavras, criando o novo a partir do velho, descobrindo a melhor forma de dizer uma emoo.
          Eu serei sempre um caador de palavras.
          E agora que ife est germinando, vou descobrir uma, ou mais palavras, para espalh-las pela lngua como as sementes da paineira levadas pelo vento.
          Tudo vai comear igual e diferente.
          Muito, muito melhor.
          S por pensar nisso ganho foras para me defender. A semana passada tive uma nova audincia com o juiz, e sei que ele se emocionou. Talvez as palavras 
consigam me levar, agora, para a liberdade.
           Errei, excelentssimo  eu disse.  Tentei apenas custear meu sonho de maneira atrevida, quem
77
sabe sonhei alto demais. Garanto porm que minha passagem por este mundo no ser intil. Ainda penso em realizar meu sonho.
           E qual o seu sonho?  perguntou o juiz. 
           Ife!  respondi.  O senhor no vai entender.  apenas um sonho de amor.
78

FIM
